Determinação do gênero por meio de medidas craniométricas e sua importância pericial
Sex Determination by craniometric measures and its forensic importance



 

Alinor Antonio da Costa
Médico, Mestre em Odontologia Legal e Deontologia pela FOP/UNICAMP

Mauricio Alves Pereira
Médico, Mestrando em Odontologia Legal e Deontologia pela FOP/UNICAMP

Daniel Israel de Anchieta Ramos
Cirurgião-Dentista, Mestrando em Odontologia Legal e Deontologia pela FOP/UNICAMP

Belkys Valentina De La Cruz Meléndez
Cirurgiã-Dentista, Mestre e Doutoranda em Odontologia Legal e Deontologia pela FOP/UNICAMP

Rhonan Ferreira da Silva
Cirurgião Dentista, Mestre em Odontologia Legal e Deontologia pela FOP/UNICAMP

Gerson Santiago Monçalves Velos
Cirurgião Dentista, Mestrando em Odontologia Legal e Deontologia pela FOP/UNICAMP

Eduardo Daruge Jr.
Prof. Dr. Coordenador do Curso de Mestrado em Odontologia Legal e Deontologia pela FOP/UNICAMP

Universidade Estadual de Campinas - Faculdade de Odontologia de Piracicaba
Departamento de Odontologia Social - Área de Odontologia Legal e Deontologia

Correspondências para:
Daniel Israel de Anchieta Ramos
ortoisrael@superig.com.br

Resumo

No processo de identificação humana, a determinação do gênero reveste-se de grande importância, pois permite ao Perito Médico ou Odonto-Legista uma redução do número total de indivíduos durante a identificação de um indivíduo desconhecido. Tal determinação pode ser realizada por métodos qualitativos e quantitativos, sendo estes últimos de grande importância, permitindo a padronização dos mesmos, bem como a possibilidade de reprodutibilidade em qualquer região do país ou do mundo. O presente estudo tem por objetivo determinar o gênero por meio de medidas craniométricas. Para tal pesquisa, procedeu-se à análise das medidas incisura mastóidea a forame incisivo (lado direito); incisura mastóidea a forame incisivo (lado esquerdo); incisura mastóidea a arco zigomático (lado esquerdo); incisura mastóidea a arco zigomático (lado direito); arco zigomático a arco zigomático; forame incisivo a básio; bi-zigomática; frontal mínimo; próstio - glabela; próstio - espinha nasal anterior e concluiu-se que há dimorfismo sexual em todas elas. Elaborou-se ainda um modelo matemático para a identificação do gênero em avaliações futuras, com índice de concordância de 84,4% e coeficiente D de Sommer com uma correlação de 68,9% entre os gêneros, podendo ser utilizado nos serviços de Antropologia e Institutos Médicos Legais, com alto índice de confiabilidade.

Palavras-chaves: Determinação do gênero, antropologia, medidas craniométricas.

Introdução

Desde que o ser humano passou a viver em sociedade, vem demonstrando a preocupação de conhecer a si próprio, suas características físicas, suas variações tanto internas como externas (1, 2). Tais processos de reconhecimento foram se aprimorando e hoje se pode fazer uma identificação não apenas por métodos qualitativos, mas também por métodos e técnicas quantitativas (3).

Os métodos quantitativos auxiliam os qualitativos. Tal fato torna-se mais pronunciado quando se têm indivíduos hipo-femininos e hipo-masculinos, ou seja, indivíduos pouco diferenciados (4). Tanto o Médico como o Cirurgião-Dentista poderão proceder à perícia antropológica, a qual faz parte do processo de identificação humana (2, 5).

Samico et al. (6) ao discorrer sobre perícias antropológicas, afirmaram que o perito Médico e/ou Cirurgião-Dentista deverá estabelecer inicialmente a espécie animal; na seqüência, determinar o gênero, depois estimar a idade, a estatura e o biótipo.

O presente trabalho tem como objetivo estabelecer uma fórmula para a determinação do gênero a que pertence o esqueleto cefálico de forma prática e confiável, pelo estudo das seguintes medidas da base do crânio:

- Incisura mastóidea a forame incisivo (lado direito), incisura mastóidea a forame incisivo (lado esquerdo), incisura mastóidea a incisura mastóidea, incisura mastóidea a arco zigomático (lado esquerdo), incisura mastóidea a arco zigomático (lado direito), arco zigomático a arco zigomático, forame incisivo a básio, bi-zigomática, frontal mínimo, próstio - glabela, próstio - espinha nasal anterior.

Material e Métodos

No presente trabalho não foram realizadas medidas em crânios, pois foram utilizadas as medidas divulgadas nos trabalhos publicados por Francesquini Júnior (2001) (7), Francesquini (2001) (8) e Valdrighi (2002) (9). Nenhum osso ficou em poder do pesquisador, não existindo vilipêndio ao cadáver. Os ossos estudados já haviam sido medidos na cidade de Campinas-SP e a autorização para o uso das respectivas medidas foi concedida. O projeto de pesquisa foi devidamente aprovado pelo CEP/FOP/UNICAMP.

Para a tomada das medidas, quando da mensuração original, foi utilizado um paquímetro de precisão, possibilitando a obtenção destas mensurações com absoluta precisão de fidelidade. Os dados obtidos foram devidamente anotados em ficha específica criada para este fim e foi com base nestas fichas que se pôde realizar tal experimento e nova estatística.

Inicialmente foi realizada uma análise descritiva dos dados, calculando-se a média, desvio padrão e intervalo de confiança. Pata testar a hipótese de que há diferença entre os gêneros quanto às medidas analisadas, foi realizado o teste "t" de Student.

Utilizou-se também a regressão logística para ajustar um modelo linear logístico utilizando-se a variável de resposta binária gênero e as distâncias como preditoras, ou seja, através da medição delas e do modelo resultante do estudo, obtendo-se uma estimativa do gênero ao qual pertence o crânio.

Resultados

As estatísticas descritivas, ou seja, medida da tendência central (média) e medidas de dispersão (valor máximo e mínimo, desvio padrão e intervalo de confiança), referentes às medidas efetuadas, são apresentadas nas tabelas 1 a 11. Ainda nessas tabelas são apresentados os valores "p" referentes ao teste "t" efetuado para a comparação entre os gêneros.

Para a distância (mm) da incisura mastóidea ao forame incisivo (lado direito) (tabela 1) observa-se que houve diferença estatisticamente significativa entre os gêneros (p<0,00001) e que a média para o gênero feminino foi 102,04 mm e para o masculino 106,89 mm.

Na tabela 2 pode-se observar que a média da distância do forame incisivo lado esquerdo até a incisura mastóidea para o gênero feminino foi de 102,10 mm e para o masculino 106,82 mm, sendo a diferença entre os gêneros estatisticamente significativa (p<0,00001).

Para a medida incisura mastóidea a incisura mastóidea (tabela 3), a média do gênero feminino foi de 96,15 mm e do masculino 102,44 mm, sendo a diferença significativa (p<0,00001).

A média do gênero feminino para a medida incisura mastóidea a arco zigomático lado esquerdo foi de 69,47 e para o gênero masculino a média foi de 72,73 mm; a diferença entre os gêneros também foi estatisticamente significativa, p = 0,000518 (tabela 4).

Para a medida incisura mastóidea até arco zigomático lado direito (tabela 5), também foi observada diferença significativa entre os gêneros p = 0,0006, sendo que a média para o gênero feminino foi 69,76 mm e para o masculino 73,18 mm.

Na tabela 6 pode-se observar que a média arco zigomático para o gênero feminino foi de 92,28 mm e para o masculino 95,16 mm, havendo diferença significativa entre os gêneros (p = 0,017363).

Já para a medida forame incisivo até o básio (tabela 7) a média do gênero feminino foi de 83,80 mm e do masculino 88, 35 com diferença estatisticamente significativa p = 0,000598.

Na tabela 8 pode-se também observar diferença significativa entre os gêneros (p<0,00001) para variável medida bi-zigomático, sendo que a média do gênero feminino é de 122,97 mm e do masculino é de 130,65.

Na tabela 9 pode-se observar que a medida frontal mínima para o gênero feminino foi em média 95,03 mm e para o masculino 96,86 mm, sendo a diferença entre os gêneros estatisticamente significativa (p = 0,035917).

Para a medida próstio-glabela (tabela 10) também foi observada diferença significativa entre os gêneros, p = 0,010785, sendo que a média para o gênero feminino foi 71,85 mm e para o masculino 75,55 mm.

A média do gênero feminino para a medida próstio-espinha nasal anterior foi de 16,11 e para o gênero masculino a média foi de 17,81 mm; a diferença entre os gêneros também foi estatisticamente significativa, p = 0,026485 (tabela 11).

(clique em cima para ver as tabelas)

Tabela 1. Distância em mm da incisura mastóidea até o forame incisivo

Tabela 2. Distância em mm do forame incisivo lado esquerdo até a incisura mastóidea

Tabela 3. Distância em mm da incisura mastóidea à incisura mastóidea

Tabela 4. Distância em mm da incisura mastóidea a arco zigomático lado esquerdo

Tabela 5. Distância em mm da incisura mastóidea até arco zigomático lado direito

Tabela 6. Distância em mm da medida arco zigomático até arco zigomático

Tabela 7. Distância em mm da medida forame incisivo até o básio

Tabela 8. Distância em mm da medida bi-zigomático

Tabela 9. Distância em mm da medida frontal mínimo

Tabela 10. Distância em mm da medida próstio-glabela

Tabela 11. Distância em mm da medida próstio-espinha nasal anterior

Regressão logística

Utilizando o método "Stepwice", construiu-se um modelo de regressão logística, sendo que pelo processo de seleção de variáveis apenas as medidas mastóidea a mastóidea e medida bi-zigomática foram selecionadas para compor o modelo. Não foram encontrados indícios de que as outras variáveis afetem significativamente a estimativa dos gêneros, podendo-se construir a seguinte função, que permite o cálculo do logito:

 

 

Logito = 33,0674 - 0,0747 * MasMas - 0,2084 * Medida bi-zigomático

Sendo MasMas a medida da mastóidea à mastóidea e medida bi-zigomática (medida do zigomático do lado esquerdo até o zigomático do lado direito).

 

A partir do valor do logito, estima-se a probabilidade de pertinência da medida a pessoas do gênero feminino através da função abaixo:

 

logito       

p =

e

                ----------------

                    logito

(1 + e)

Discussão dos Resultados

Desde os primórdios da humanidade o ser humano verificou a necessidade de identificar os cadáveres encontrados nos campos de batalha, nos casos suspeitos de homicídios, nas florestas, entre outros tantos lugares e situações. Neste período constatou necessidade de idealizar e padronizar técnicas e métodos para se individualizar uma pessoa.

Somente em meados do séc. XX a antropologia brasileira passou a desenvolver e a utilizar com maior intensidade modelos matemáticos realizados e idealizados em amostra nacional.

Tal situação deveu-se principalmente à mestiçagem que ocorreu e que vem ocorrendo no Brasil, bem como, na maior parte do mundo. Tal mestiçagem ocorreu principalmente pela união dos três grandes grupos raciais humanos existentes: o grupo dos caucasóides (representado pelos portugueses, espanhóis, italianos, alemães, holandeses, entre outros), o grupo dos mongóis (representado pelos arborígenes existentes quando do descobrimento) e o grupo dos negróides (representado pelos negros trazidos para as lavouras da cana-de-açúcar, bantus, sudaneses, entre outros).

Sempre que se busca padronizar uma determinada técnica e/ou método. Objetiva-se em primeira instância permitir a reprodutibilidade da mesma em qualquer região do globo, e em segunda análise inibir a realização de reconhecimentos falsos, com ou sem a existência de má fé.

Na hipótese de não haver modelos matemáticos para todas as regiões do país pode-se utilizar modelos matemáticos pré-existentes, porém, sempre fazendo menção deste fato ao Magistrado ou à autoridade policial que solicitou tal análise de identificação.

Em síntese, buscou-se compor um novo modelo matemático, permitindo que o mesmo possa ser futuramente transformado em um programa de computador, permitindo não só a facilidade de uso, bem como a agilidade e fidedignidade almejada nos dias atuais.

De acordo com os resultados obtidos e as análises realizadas é lícito concluir que pela análise antropométrica das medidas propostas, há dimorfismo sexual em todas elas; Foi possível elaborar um modelo matemático para a identificação do gênero em avaliações futuras, com índice de concordância de 84,4% e coeficiente D de Sommer, com uma correlação de 68,9% entre os gêneros estimados e observados, podendo ser utilizado nos serviços de antropologia e institutos médico legais com alta confiabilidade. Isso possibilitará a praticidade de um cálculo computadorizado.

Abstract

In the process of human identification, the determination of gender is a very important step, because it allows to Medical Expert or Forensic Odontologist the reduction of the total number of individuals, during the identification of an unknown body. Such determination can be accomplished by qualitative and quantitative methods, being these last ones very important because they allow the standardization, as well as the possibility of being reproduce in any area of the country or of the world. The present study has for objective the determination of the gender through craniometrical measures. An analysis of the fallowing measures was conducted: incisura mastoidea to the incisive foramen (right side); incisura mastoidea to the incisive foramen (left side); incisura mastoidea to zygomatic arch (left side); incisura mastoidea to zygomatic arch (right side); zygomatic arch to zygomatic arch; incisive foramen to the basion; bi- zygomatic; minimum frontal; prosthion - glabella; prosthion - spina nasalis anterior and it was concluded that there is a sexual dimorphism in all of them. It was also elaborated a mathematical model for the identification of the gender for future evaluations, with index of agreement of 84,4% and Sommer's coefficient D with a correlation of 68,9% between genders, that can be used at the Anthropological Services and Legal Medical Institutes, with high index of reliability.

Keywords: Sex determination, anthropology, craniometric measures

Referências Bibliográficas

1.       Melani RF. Contribuição para o estudo do comportamento dos angulos cranianos de Rivet, Jacquard, Cloquet e Welcher, através da análise cefalométrica em brasileiros. [Tese]. Piracicaba: FOP/UNICAMP, 1995.

2.       Almeida CAP, Daruge E. Antropologia aplicada a Odontologia Legal. [Apostila] Piracicaba: FOP/UNICAMP, 1995.

3.       Vanrell JP. Odontologia Legal e Odontologia Forense. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002.

4.       Galvão LCC. Estudos Médicos Legais. Porto Alegre: Sagra-Luzzatto, 1996.

5.       Ricco LF. Ciência e tecnologia aplicada à investigação policial. São Paulo: Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, 1996.

6.       Samico AHR, Menezes JDV, Silva M. Aspectos éticos e Legais do exercício da Odontologia. 2. ed. Rio de Janeiro: CFO, 1994.

7.       Francisquini JR. Identificação do sexo a partir de medidas da base do crânio e sua importância pericial. [Tese]. Piracicaba: FOP/UNICAMP, 2001.

8.       Francesquini MA. Determinação do sexo através de medidas cranianas. [Dissertação]. Piracicaba: FOP/UNICAMP, 2001.

9.       Valdrighi M. Determinação do sexo pelas medidas lineares da face e sua importância pericial. [Dissertação]. Piracicaba: FOP/UNICAMP, 2002.